Distúrbios olfativos e gustativos causados pelo COVID-19: Como recuperar o prazer de comer?

Anosmia é a perda completa do olfato, enquanto hiposmia é a capacidade parcial ou reduzida de cheirar e detectar odores. A anosmia é comumente associada a infecções virais do trato respiratório superior, por exemplo, resfriado comum, influenza:

E agora a causada por SARS-CoV-2 também foi relatada.

Além dessa, a disosmia também foi relatada como um distúrbio olfativo em pacientes com COVID-19:

A disosmia pode ser causada pela regeneração incompleta nos neurônios olfativos ou pelo mau funcionamento dos centros olfativos primários no cérebro, especialmente o bulbo olfativo.

Fato é que os sintomas pós-COVID frequentemente relatados em consultório são a perda do olfato e paladar. Estudo epidemiológico mostrou que 85,6% de 417 pacientes com COVID-19 apresentavam disfunções olfativas (LECHIEN et al., 2020). Yan et al. (2020) analisaram um grupo de 858 pacientes com COVID-19 e relataram que 68% tinham anosmia como sintoma.

Em pessoas saudáveis, a quimiossensação olfativa é mediada pelo nervo olfativo e pelo nervo trigêmeo. Resumidamente, a detecção do olfato ocorre quando as células receptoras olfativas na cavidade nasal superior se ligam às moléculas odoríferas, e então um sinal é transportado através dos neurônios aferentes primários até atingir o bulbo olfatório. Por sua vez, no bulbo olfatório, há uma sinapse com neurônios de segunda ordem responsáveis ​​por levar os estímulos recebidos aos centros olfativos superiores do cérebro (córtex cerebral), onde o olfato é detectado. Em relação à contaminação pelo SARS-CoV-2, há uma exacerbação da resposta inflamatória na cavidade nasal, que impede temporariamente que o cheiro chegue aos receptores neuronais olfativos.

Em relação aos distúrbios do paladar, a ageusia é caracterizada por uma perda completa da função do paladar. Recentemente, a ageusia foi considerada um dos principais sintomas da COVID-19.

Nota-se que o paladar saudável é percebido por meio da ativação de células gustativas especializadas, principalmente nas papilas linguais. A sensação é transmitida através do nervo facial, nervo glossofaríngeo e nervo vago, permitindo qualidades sensoriais primárias de sabor (doce, salgado, amargo, azedo, kokumi e umami).

Alterações graves do paladar e do olfato sem rinorreia (corrimento excessivo de muco nasal) ou obstrução nasal podem ser sintomas que antecedem o estágio inicial da doença.

Sabe-se que receptor para SARS-CoV-2 é a enzima conversora de angiotensina 2 (ACE2), encontrada no epitélio das papilas gustativas e das glândulas salivares (H.XU et al., 2020). Portanto, as glândulas salivares humanas são afetadas precocemente pela infecção por SARS-CoV-2, resultando em sua disfunção e consequente comprometimento do fluxo salivar (LOZADA-NUR et al., 2020).

Entretanto, não se sabe exatamente por que algumas pessoas perdem o olfato e outras não, mas sabe-se que quando a pessoa contrai o COVID-19, o vírus se liga às células do nariz. Nesse processo, o que ocorre são danos a essas células, levando à perda do olfato.

As células nervosas do nosso nariz processam os cheiros. Mas ao redor de cada célula nervosa existem células de suporte olfativo – elas nutrem as células nervosas. Na maioria das vezes, quando a pessoa perde o olfato, é porque o vírus atacou essas células de suporte.

A perda do paladar pode estar associada à ligação entre o SARS-CoV-2 e os receptores de ácido siálico, um componente da saliva que protege as glicoproteínas responsáveis ​​pelo transporte de moléculas que estimulam o paladar nos poros gustativos. Como resultado dessa ligação, a degradação das partículas de sabor com alteração do sabor é favorecida.

O olfato e o paladar estão interligados em nosso cérebro, então, desta forma quando se perde o olfato, também pode-se perder o paladar.

Pesquisas sugerem que a inflamação também pode desempenhar um papel no comprometimento olfativo e gustativo, embora seja menos claro.

 

 

 

Mas, como podemos ajudar?

Alguns estudos sugerem recriar a textura sensorial para pacientes com anosmia.

Trabalhar com a textura de alimentos (que inclui viscosidade, dureza, elasticidade) nesses pacientes tem sido sugerido por pesquisadores. Ao contrário do aroma e do sabor, que estão associados a estruturas moleculares específicas, a textura dos alimentos é uma propriedade cognitiva baseada na interação de diferentes sentidos (tato, audição e visão).

Alimentos mais duros, por exemplo, podem ajudar a prolongar a mastigação e o paladar, o que pode ser positivo para pacientes com anosmia e ageusia. Além disso, esses alimentos aumentam a mastigação, reduzem as taxas de excessos e promovem a saciedade.  Investir em texturas de alimentos firmes e crocantes que estimulem o nervo trigêmeo durante a ingestão pode aumentar o apetite e o prazer.

Outra opção é consumir alimentos com texturas diferentes para melhorar a interação tátil e o prazer, em vez de consumir mais alimentos ou adicionar açúcar, sal ou gordura à dieta. Muitas pessoas que sofreram perda de olfato relataram compensar a falta de sabor adicionando açúcar, sal ou temperos industrializados aos alimentos. Porém, o excesso de açúcar e sal pode ter efeitos adversos a saúde do paciente, ainda mais após a infecção viral.

Além disso, pode-se combinar texturas de alimentos aliadas a sabores fortes (por exemplo, pimentas, curry, páprica e outros) e especiarias (por exemplo, canela, cravo-da-índia, açafrão, cardamomo, cominho, salsinha, gengibre, baunilha) também podem adicionar complexidade à experiência alimentar. Temperos e especiarias picantes demonstraram ajudar a melhorar a percepção do sabor, adicionando aroma, aumentando a produção salivar e, assim, podendo aumentar o apetite.

Nosso olfato começa pelas narinas, mas ao mastigar e engolir alimentos, sentimos odores e compostos aromáticos através da cavidade nasal, que fica acima do osso que forma o céu da boca e se curva para baixo na parte de trás para se juntar à garganta.

Em ambas as fases, tecidos e nervos enviam sinais neurológicos para o bulbo olfativo no cérebro. Isso desempenha um papel dominante no prazer alimentar, na qualidade de vida e nos resultados de saúde relacionados à nutrição.

Algumas soluções para melhorar a qualidade de vida em pacientes com anosmia e parosmia após COVID-19 foram propostas, como o treinamento olfativo, que envolve cheirar ativamente os mesmos aromas para treinar o cérebro e induzir a capacidade de identificar odores (WALSH- MESSINGER, 2021).

Por exemplo, a meta-análise de Sorokowska, Drechsler, Karwowski e Hummel (2017) sugeriu que o treinamento do olfato era útil para melhorar a função olfativa geral. O método também é promissor para a recuperação da parosmia (LIU et al., 2021).

Na prática, alguns profissionais têm trabalhado com treinamento olfativo com óleos essenciais de orégano, limão, eucalipto e alecrim, por exemplo.

 

 

 

Como funciona?

Os pacientes são orientados a dar baforadas dos óleos por 25 segundos dentro das narinas. Após, é orientado ao paciente aguardar um minuto para dar tempo ao cérebro para processar esse cheiro. Quando terminar um minuto, oriente a fazer novamente o mesmo processo.

A sugestão é fazer essa prática todos os dias, por 3 meses (90 dias).

 

Em suma uma alimentação anti-inflamatória, estilo mediterrâneo, trabalhar com diferentes texturas e sabores (frutas, legumes, alimentos proteicos, oleaginosas, leguminosas, azeites aromatizados) e a inclusão de ervas e especiarias na alimentação poderá estimular o paladar e o olfato desses pacientes de forma mais rápida.

Exemplos de alimentos: suco verde, chá de gengibre, chá preto com maçã, cravo-da-índia e canela, água aromatizada, carnes e frangos com temperos picantes, molhos para saladas, azeites aromatizados.

 

Receita

Azeite Aromatizado

Ingredientes:

500 ml de azeite;

1 dente de alho;

1 ramo de alecrim;

2 ramos de tomilho;

4 folhas de sálvia;

1 pimenta dedo-de-moça cortada ao meio;

50 g de gengibre cortado em rodelas.

Modo de preparo:

Numa panela coloque 500 ml de azeite e leve ao fogo baixo por 5 minutos, só para aquecer (sem deixar ferver). Retire do fogo e acrescente 1 dente de alho fincado, 1 ramo de alecrim, 2 ramos de tomilho, 4 folhas de sálvia, 1 pimenta dedo de moça cortada ao meio e 50 g de gengibre cortado em rodelas. Tampe a panela e deixe descansar por 1 hora. Se quiser, guarde dentro de um vidro fechado.

 

Referências:

CAZZOLLA, A. P. et al. Taste and Smell Disorders in COVID-19 Patients: Role of Interleukin-6. ACS Chem Neurosci. 2020 Aug 4.

COELHO, D. H. et al. Predictors of smell recovery in a nationwide prospective cohort of patients with COVID-19. Am J Otolaryngol. 2022 January-February; 43(1): 103239.

LECHIEN J. R. et al. European Archives of Oto-Rhino-Laryngology; 2020. Olfactory and gustatory dysfunctions as a clinical presentation of mild-to-moderate forms of the coronavirus disease (COVID-19): A multicenter European study.

LIU, D.T et al. Parosmia is associated with relevant olfactory recovery after olfactory training. The Laryngoscope. 2021.

LOZADA-NUR, F. et al. Dysgeusia in COVID-19: Possible mechanisms and implications. Oral Surgery, Oral Medicine, Oral Pathology and Oral Radiology. 2020

OLIVEIRA, W. Q.;  DE SOUZA, P. H. M.; PASTORE, G. M.. Olfactory and gustatory disorders caused by COVID-19: How to regain the pleasure of eating? Trends Food Sci Technol. 2022 Apr; 122: 104–109.

SOROKOWSKA, A.; DRECHSLER, E.; KARWOWSKI, M.; HUMMEL T. Rhinology; 2017. Effects of olfactory training: A meta-analysis.

XU, H. et al. High expression of ACE2 receptor of 2019-nCoV on the epithelial cells of oral mucosa. International Journal of Oral Science. 2020

YAN ,C. H. et al. Association of chemosensory dysfunction and COVID-19 in patients presenting with influenza-like symptoms. International Forum of Allergy and Rhinology. 2020